Agora o Blues com Z é 100% Blues Brasil.
Essa é nossa mais nova iniciativa para divulgar e incentivar o gênero no país.
De Norte a Sul do Brasil o Blues é praticado e estamos abrindo espaço para todo brasuca que queira expressar seu feeling Blues.
Continuamos com os bate-papos. Toda semana um nome ou uma banda nacional para nos contar como é fazer Blues por aqui.
"....O velho Blues não tem formato, nem receira, nem religião,a cor da pele não se mete nisso..."




Seja bem-vindo, o blues vai rolar! E como dizia o mestre Muddy Waters, "pedras que rolam não criam limo".

11 de dezembro de 2007

Blues e Religião


A religião exerceu um papel bastante significativo na criação e evolução do Blues. Há quem argumente que o Blues veio da música religiosa e dos spirituals, canções que os negros criaram a partir das histórias da Bíblia. Mas, na verdade, ele tem muito mais a ver com a realidade prática das work-songs ou canções de improviso no trabalho. Na atmosfera opressiva do Delta, muitos bluesmen usavam de exaltação religiosa para se expressar, caso de Blind Willie Johnson (1901-1949).
Por ser um tema inerente à raiz do Blues, resolvemos aparar algumas arestas sobre o assunto e publicar um pequeno estudo sobre a religião no Blues.

Holy Blues x Blues – Música de Deus x Música do Diabo
"Holy blues"(blues religioso) é um evidente paradoxo. O blues é considerado como "a música do diabo", um principio sustentado por muitos cantores de blues e de algumas igrejas afro-americanas. O blues não é religioso e a música religiosa não é o blues. O blues celebra os prazeres da carne, enquanto que a música religiosa celebra a “libertação” das amarras mundanas. Um é o azeite e o outro é a água, não podem ser misturados.
Numa época considerada como as vozes gêmeas da cultura afro-americana, as tradições gospel e blues, foram julgadas gradativamente com os dois lados de uma linha divisória. Os afro-americanos eram de mútua exclusão: o blues ou a música gospel, Deus ou o Diabo, o céu ou o inferno. O cantor de blues escolhia as segundas opções, às vezes estabelecendo pactos (conforme diz a lenda fez Robert Johnson) para adquirir um domínio mais amplo da "música do diabo".
No momento atual muitos fãs consideram aos cantores de blues, principalmente os cantores do Delta, como os equivalentes afro-americanos do século XX dos poetas românticos do século XIX, que se rebelaram contra as convenções sociais com sua arte e morreram jovens pela sua inclinação à tuberculose, á sífilis ou ao suicídio.
.O blues e a música religiosa desempenhavam diferentes funções sociais na cultura afro-americana. O blues nasceu no interior de uma cultura afro-americana no momento em que as igrejas extáticas Holiness e Pentecostal estavam-se espalhando, e estes credos populares acolheram expressões musicais ecléticas, no caso dos religiosos gospel ou holy blues.


Da África para as Américas
As raízes africanas no Blues são evidentes tanto em seu ritmo, sensual e vigoroso, quanto na simplicidade de suas poesias que basicamente tratavam de aspectos populares típicos como religião, trabalho, amor, sexo e traição.
A cena, que acabou por tornar-se típica nas plantações de algodão do Delta, era a legião de negros trabalhando de forma desgastante sobre o embalo das work-songs ou gritos (hollers), expressão vocal básica trazida da África.


A Religião
Em sua chegada na América, no início do século 19, os negros sofreram uma evangelização maciça, porque as religiões africanas eram proibidas aos escravos. Mas é claro que uma sociedade tão profundamente cristã, como a dos plantadores escravagistas do Sul dos EUA ,não podia confessar francamente essa utilização do homem negro unicamente como animal de carga. Depois de muito tempo considerando os negros como meio-macacos, resolveu-se evangelizá-los em massa, levando-lhes assim a felicidade de crer em Jesus. Bem depressa, e provavelmente desde o início daquele século., o canto religioso tornou-se um dos principais meios de expressão dos negros. Com uma enorme capacidade de adaptação, os escravos negros transformaram os hinos batistas e metodistas em cantos que misturavam as origens africanas e européias e que se espalharam no mundo inteiro sob o nome de negros- spirituals.
Entre 1895 e 1900, florescem seitas religiosas em todo Sul e Sudeste, das quais, a mais célebre, era a dos pentecostais. Essas novas igrejas negras eram animadas por um fervor religioso extraordinário, os gospels songs, herança direta dos negros espirituals . Os negros deram, também, um sentido muito particular aos temas inspirados na Bíblia e, em maioria, no Antigo Testamento. A mistura de profunda tristeza e de alegria fervorosa pelo ‘paraiso’, sugere apressados por reencontrar Jesus, para, enfim, ser livres. Mas, se esse desejo de morte está efetivamente presente com freqüência, não se pode negar que ‘atravessar o Rio Jordão’ significava também tornar-se livre. Em todo caso, o relato dos sofrimentos e penas do povo judeu no Antigo Testamento tiveram uma ressonância muito profunda entre os escravos, que identificaram-se visivelmente com os hebreus, fugindo do cativeiro no Egito para a Terra Prometida. Mas por outro lado, não faltava o espírito de crítica. Como nestes versos da época: “O branco usa o chicote/o branco usa o gatilho/ mas a Bíblia e Jesus/ fizeram do negro um escravo....Essa rebeldia já era um germe do Blues.

Naquela época, a palavra ‘blue’ era relacionada às coisas maléficas. Desde o século 16, a expressão ‘blue devils’ era corrente e significava um estado de depressão emocional, enquanto a palavra no plural ‘blues’ conotava alucinações provocadas por delirium tremens. Sendo assim, os negros religiosos viam na palavra o que de pior podia existir.
Son House (1902-1988),
por exemplo, cresceu num ambiente religioso e acabou se insurgindo contra a influência demoníaca do Blues. Isso não o impediu de gravar alguns clássicos do gênero, como Preaching Blues e Jinx Blues. Mas isto durou pouco tempo.
Após o fim da escravidão, os negros continuaram num regime de semi-escravidão e possuíam pouquíssimas forma de lazer. Uma delas eram os modestos jook joints, barracos de madeira que abrigavam uma mistura tosca de sala de conserto, salão de danças e bar. Por ali passaram os primeiros nomes do Blues. Detalhe: eram localizadas o mais longe possível da igreja local.

Por Edu Soliani
Fontes: The Blues – Gérard Herzhaft – 1986.
“Blues” – Da lama à fama – Roberto Muggiati – 1995
Blog – www. religiaoecultura.blogspot.com

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